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	<title>Alex Steffen &#8211; Jornal Qtal</title>
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		<title>Desastrando a própria lenda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jornal Qtal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Jun 2019 18:13:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alex Steffen]]></category>
		<category><![CDATA[Desastrando a própria lenda]]></category>
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					<description><![CDATA[A esposa ainda não se recuperara de tantos incidentes ocorridos em poucos dias, para tanto havia viajado para a casa da sua família. Precisava de um tempo, mas não deixaria de amar o seu cônjuge de tamanho avantajado. Ele, ainda que tristonho, aceitou a pedida da cara metade. Pensava, umbigalmente, em tudo que poderia fazer [&#8230;]]]></description>
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<p>A esposa ainda não se recuperara de tantos incidentes
ocorridos em poucos dias, para tanto havia viajado para a casa da sua família.
Precisava de um tempo, mas não deixaria de amar o seu cônjuge de tamanho
avantajado. </p>



<p>Ele, ainda que tristonho, aceitou a pedida da cara metade.
Pensava, umbigalmente, em tudo que poderia fazer sozinho. Amava
incondicionalmente, mas amava ainda mais a si próprio, afinal, lhe sobraria a
outra metade da maça para devorar entre uma refeição e outra. Nada precisava
dividir. Nada.</p>



<p>Vá lá, fez das suas peripécias. Caiu. Tropicou. Enfim, a
sina de desastrado continuava. Isso, todavia, não lhe desmotivava. Era assim
desde sempre. Assistira tevê. Olhava futebol e via o seu time vencer, mas é
claro, não torcia para ele, pois caso isso ocorresse outra derrota avassaladora
aconteceria. Era pé frio. Gelado.</p>



<p>Depois de muito “mais do mesmo” resolveu ir banho, afinal,
para ter a primeira noite no colchão novinho precisava estar asseado. Olhou
para a ducha e sorriu. O box de acrílico inexistia, ele o havia quebrado dias
antes ao pisar na bucha vegetal que estava ao chão. Resolveu matar o banho. Não
poderia correr o risco. Estava sozinho. E lá se foi, pra cama, sem banho mesmo.</p>



<p>Antes de deitar leu as orientações de INMETRO e percebeu que
poderia engordar outros 100 quilos. Não havia risco algum de explodir o tal
colchão. Deitou-se e entrou no vai e vai, feito ondas do seu novo leito.
Diferente não seria, dormiu. A sequência normal deu-se. Derrubou toda a
Floresta Negra, tão potente era o seu ronco. Foi aí que os cordeiros deram
lugar ao mundo dos sonhos, mas até Morfeu saiu de perto, pois algo poderia
acontecer.</p>



<p>Saíra do próprio corpo e adentrava um túnel do tempo. Tudo
bem, não entalou no vão de entrada por mero detalhe, mas saiu todo arranhado.
Regressou a 1969 e viu um casario bem antigo e foi espiar. Não tinha perigo de
ser visto. Pairava no ar. Viu a própria mãe em uma cama repleta de palha de
milho. Gritos e gemidos identificavam o trabalho de parto. Ele, observava tudo
com grande curiosidade. Afinal, saberia como nascera. O pai na sala estava,
unido a uma garrafa de pinga. A parteira ajudava com a tesoura pronta para
atuar. E foi aí que tudo aconteceu.</p>



<p>Ouvia-se o choro abafado do balofo bebê. O pai trôpego veio
ver o primeiro rebento. A mãe sorria e chorava ao mesmo tempo. A parteira –
pobre velha – faria o que o manual indicava. Faria.</p>



<p>De tão emocionado ao ver o próprio nascimento, o nosso
anti-herói deu um passinho frente. Esbarrou no criado mudo e, sabe-se lá como,
o espírito era tão pesado quanto o dono que dormia no moderno colchão. E o esbarrão
fez com que a vela caísse dentro da gaveta das meias. Segundos depois o cheiro
do chulé queimado. A parteira toma às mãos a bacia cheia de água onde lavava o
bebê e tentou apagar o fogo. Esqueceu, porém, de tirar o gorduchinho de dentro
e lá se foi, bebê, bacia, água, cordão, tudo enfim. O pequeno caíra debaixo da
cama com pinico, sem tampa, virado sobre ele. A mãe estava desesperada e
esgualepada. O pai, fez o que lhe veio em mente: tomou mais um trago de pinga.
A parteira decidiu se aposentar e o viajante do tempo resolveu que era hora de
voltar, pois do jeito que andava a onda de azar, o bebê voltaria pra dentro da
mamãe para nunca mais vir a este mundo cruel.</p>



<p>Acordou, em um rompante, respirou fundo. Tomou um gole de
água, diretamente do vaso de flor, engasgou com o espinho a roseira e respirou
fundo. Estava bem, desastradamente vivo. O bebê não conseguira voltar ao
ventre. Ainda bem, para ele. Azar do mundo&#8230;</p>
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		<title>Desastrado &#8211; a saga continua</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Jornal Qtal]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Jun 2019 18:11:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alex Steffen]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Desastrado a saga continua]]></category>
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					<description><![CDATA[Digamos que o tempo não foi o seu aliado pois o corpo era uma coleção interminável de cicatrizes. Era calejado pela vida e os poucos cabelos que lhe restavam eram brancos. No meio cabeça uma marca imensa e três fios de cabelos puxados para o lado tentando disfarçar mais um sinal de desastre. De carro [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Digamos que o tempo não foi o seu aliado pois o corpo era
uma coleção interminável de cicatrizes. Era calejado pela vida e os poucos
cabelos que lhe restavam eram brancos. No meio cabeça uma marca imensa e três
fios de cabelos puxados para o lado tentando disfarçar mais um sinal de
desastre.</p>



<p>De carro se acidentara dezenas de vezes, mas nunca se ferira
com gravidade, porém quando saía de sua casa os amigos solicitavam: avise, se
você sair, nós ficaremos em casa. </p>



<p>Em comum com os tempos de juventude, além do azar, uma
paixão desenfreada. Isso, se você tiver uma memória razoável deve recordar da
moça que foi atingida por um cesto de pétalas de rosas. Pois bem, ela é o seu
grande amor, e para a sua felicidade, amor correspondido. </p>



<p>No dia que casaram o padre tropicou na sineta e caiu sobre o
coroinha. A aliança não era grande suficiente. E, devido a emoção, acabou
pisando no vestido de noiva e deixando quase todo corpo da jovem esposa a
mostra. Mas isso já é parte do passado. Agora que estão envelhecidos aprenderam
a conviver com os desastres do dia-a-dia. Porém, por aquela ninguém esperava,
ah, ninguém.</p>



<p>Deitados na cama em seu novíssimo e confortável colchão
resolveram fazer uma inauguração. Sobre o criado mudo um abajur e um copo onde
repousava tranquilamente a dentadura. Estavam na fase de carícias e esqueceram
de se precaver, afinal, fazia poucos meses que ele havia trocados os pinos que
tinha na perna esquerda (quebrara o fêmur quando ficou trancado na porta
giratória do banco). A emoção era tanta em inaugurar com sua amada o caríssimo
colchão de molas que tudo ficou no esquecimento. Aquecera a libido e ambas já
arfavam de prazer, os toques eram cada vem mais calientes e ele lembrou-se de
um detalhe que ela adorava. Foi ao banheiro, correndo, e quando de lá retornou
com um creme caseiro escorregou no tapetinho, tentou se aparar no criado mudo,
queimou a mão ao tocar a lâmpada incandescente e, pra piorar ainda mais,
quebrou o copo, derrubando a dentadura. Sentou na cama desolado, afinal todo
tesão terminara, porém <em>nada está tão ruim
que não possa piorar</em>. Ela, impregnada pela onda de azar, levantou para
buscar uma pomadinha para a queimadura. Quando voltava para o quarto,
escorregou na poça de água, pisou na dentadura e caiu sobre o marido. O tesão
estava aflorando e eles trataram de inaugurar o novo colchão, sem se importar
com a queimadura e nem com a dentadura. Durante trinta minutos tiveram
prazeres, como na juventude, inaugurando o colchão em grande estilo, porém, na
hora de levantar ele percebeu algo errado: a perna estava trancada no colchão
como que atada. Uma das molas havia estourado, afinal, eram mais de duzentos
quilos de prazer gemendo sobre a cama, fazendo com que o colchão arrebentasse e
a mola enroscasse na perna. Lá foi ela para o telefone chamando pelos
bombeiros. A cena encontrada era das mais inusitadas: um homem velho, gordo,
nu, ainda excitado e com a perna emaranhada nas molas do colchão. Ele foi
retirado dali e colocado em uma maca, e quando o bombeiro chefe saia puxando o
veículo de socorro ele, também ele, caiu, pisando em alguns dentes que se
espalhavam pelo chão.</p>



<p>Os dois foram para o hospital e, enquanto isso, a mulher
chamou o dono da loja de colchões, que não quis acreditar no que ouviu. Aceitou
trocar o produto e levou para a casa um colchão d’agua. Certamente ele não
conhecia a onda de azar e tudo que poderia ocorrer dentro daquele quarto. Quem
viver, verá!</p>
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